Nossa-Senhora Maria-Medianeira De Todas as Graças

Quando atravessamos o Largo da Porta de Lilas, no 19º Bairro de Paris, e comelçamos a descer o Boulevard Serurier , parte da antiga circular exterior, não muito longe das primitivas fortificações, hoje "desaparecidas", logo nos aparece na linha do horizonte a nova Basílica dedicada a Nossa Senhora - Maria Medianeira. O espaço que separa o templo dos edifícios fronteiros é amplo e preenchido pelas árvores da avenida: para chega de fora, Paris começa aqui. À direita a vista espraia-se num vasto plano ainda praticamente descoberto, pois as construções da zona de St. Gervais são predominantemente baixas : são os arredores de Paris espraiando-se na linha do horizonte.

À medida que nos aproximamos, a basílica, construída sobre uma ligeira elevação, destaca-se pela imponência da torre sineira.Os terrenos em volta, de piso irregular, e cobertos por uma vegetação escassa, estão ainda vagos, pois a concretização do vasto plano de construções estabelecido pelas autoridades de Paris para esta zona, está ainda demorado.

Numa primeira abordagem, o que mais capta a atenção é a harmonia e o equilíbrio de proporções da nova basílica. De acordo com o próprio arquitecto, todo o projecto, fachadas e abóbada foram fruto de estudos e cálculos rigorosíssimos e o resultado é convincente: o número de ouro ainda não perdeu a sua eficácia.

Após uma primeira vista de conjunto, somos depois atraídos pela simplicidade grandiosa desta construção, no seu todo: o despojamento de pormenores e, contudo, tanta imponência. inicialmente, o arquitecto dispunha apenas de um orçamento de 120 milhões para a obra em geral: muito pouco para uma obra de tamanha envergadura. Todavia ele soube tirar partido desta inconveniência e transformar a aparente pobreza em riqueza.

O edifício comporta dois níveis distintos. A igreja do piso inferior encontra-se, de um dos lados, abaixo do nível do solo, tendo, no entanto, do outro lado, uma entrada directa a partir de um pátio exterior lateral. A igreja do piso superior abre-se directamente para a fachada principal. olhando o conjunto arquitectónico de frente, vê-mo-lo elevar-se, à esquerda, pela imponência sóbria da sua torre quadrangular, enquanto que, à direita, o seu perfil como que se esbate, tornando-se mais suave, ao prolongar-se pela cúpula baixa e arredondada do pequeno baptistério, que se encontra ligado ao interior do templo por um pequeno corredor.


A igreja do piso superior

O peristilo nobre dá relevo à entrada onde se abrem o portão principal e dois guarda-ventos laterais, respectivamente à esquerda e à direita, que dão acesso à igreja principal.

A tribuna, com o seu balcão arredondado, está apoiada em dois pilares circulares, construídos em blocos de alvenaria ligados entre si e fazendo lembrar a cobertura das paredes; a escada de acesso prolonga-se como uma torre votiva que será iluminada como uma lamparina no dia do aniversário da libertação da cidade de Paris, uma vez que a basílica foi construída em cumprimento de uma promessa do cardeal Suhard no dia seguinte à libertação de Paris em 1944.

A nave central, com uma altura total de 14 metros, está revestida de tijolos, nos vários cambiantes de cor resultantes da sua cozedura, que formam um tecto decorativo, onde se encontra escrita a palavra PAX, cujas três letras se encontram interligadas ao longo do eixo longitudinal. Esta abóbada de arco abatido e de volta inteira, sem qualquer ponto de apoio, mede 20,5m de largura e 34m de comprimento. Ao fundo, a capela-mor, menos alta e mais larga que a nave principal e enquadrada por arestas verticais, apresenta-se em toda a nudez da sua decoração mural, onde se destaca o grande crucifixo do altar-mor.


A igreja do piso inferior

Para além do acesso directo, a partir do pátio lateral, esta igreja comunica interiormente com a igreja do piso superior, através de duas escadarias laterais que sobem ao longo das fachadas laterais. O tecto da nave e as suas bases laterais são constituídas por gables cuja parte central forma uma cadeia de arcos. Colunas de cimento decoradas pelo escultor Robert Coutin, sustentam o pavimento da igreja do piso superior.


A construção

O terreno irregular, de má qualidade, de origem argilosa, cheio de entulhos e mesmo transformado em aterro provisório necessitou de um cuidado muito especial em relação a alicerces que tiveram de ficar apoiados em estacaria. As traves da estrutura principal foram construídas em betão armado e sustentam as paredes formadas por blocos de pedra de Saint-Maximin, ligadas cuidadosamente entre si, sem reboco exterior nem interior. As ombreiras da entrada principal e as colunas do peristilo foram realizadas em betão armado rebocado. As paredes da nave central têm várias janelas altas e estreitas, guarnecidas por vitrais formados por fragmentos irregulares de vidro encrostados em cimento, da autoria de mestre Loire, em colaboração com o arquitecto. Os que se encontram na entrada e nalgumas paredes laterais apresentam cores suaves e frias, enquanto os do santuário foram realizados em tonalidades quentes. O pavimento de ambas as igrejas foi revestido com lajes de Mulliez e lajes de cascalho grosso. Os altares e as credências de apoio são em pedra polida de Larrys mosqueada. O travejamento do telhado é em betão armado e nele se encontram apoiadas as vigas de madeira onde estão dispostas telhas "Super-Beaucour", de material escuro, escolhidas especialmente em tons castanho-avermelhados, obtido através de um tratamento próprio com fogo.

A iluminação eléctrica das duas igrejas foi objecto de um estudo minucioso e atento : foi distribuída de forma a iluminar eficazmente quem assiste às celebrações, deixando, contudo, o ambiente envolvido numa semi-obscuridade, ao mesmo tempo que o altar mor resplandece de luz.

O aquecimento é assegurado de duas formas: há tubos de aquecimento eléctrico fixados sob os bancos dos fiéis e há um sistema de aquecimento central a água quente que se destina a todas as restantes dependências. Os vitrais da igreja do piso inferior inspiram-se em temas iconográficos e foram legados por Yvonne Baratte, uma jovem profundamente virada para a meditação e de uma devoção heróica, que morreu ao ser deportada. Ela tinha-os desenhado para uma capela que estivera ao seu cuidado durante a ocupação.

A via-sacra é um fresco de Mlle Barthalot. O sacrário, a cobertura da pia baptismal e os candeeiros, em madeira e cobre, são do ourives Robert.

Uma praça de mais de 1 600m2 a construir brevemente será o átrio de boas-vindas que este belo monumento merece. Num bairro popular, predominantemente industrial, a basílica de Nossa Senhora Maria Medianeira é um enriquecimento para a antiga cintura de Paris, tão pobre em belezas arquitectónicas, realizada dentro de um espírito de tradicionalismo renovado. É o culminar lógico de longas e aturadas pesquisas onde se confrontaram as exigências, por vezes contraditórias, de espiritualidade e de estética contemporâneas. Para os defensores da arte sacra vanguardista e para os seus opositores, este monumento constituirá certamente matéria para nova polémica. mas, tal como se apresenta aos olhos do visitante imparcial, impõe-se pela harmonia das suas formas e pela atmosfera propícia ao recolhimento que as suas paredes encenam.